Você não cansa de ser enganado? Um dossier completo sobre a mentira ‘do Papa que apoia casamento gay’

Não era ainda nove horas da manhã do dia 21 quando a bomba caiu nos grupos de Whatsapp com uma notícia, ainda em Inglês, de um confiável site católico, que dizia “Papa Convoca A Criação de Uma Lei De União Civil Para Casais do Mesmo Sexo, Numa Mudança de Posicionamento do Vaticano

Desde aquele momento foram aproximadamente 48 horas corridas de análise, pesquisa, inúmeros contatos, muita prudência e um pouco de paciência para que entendêssemos o que de fato ocorreu: uma distorção e um aproveitamento malicioso do Santo Padre, das suas falas, e da sua doutrina para apoiar uma narrativa lobbista “pró casamento gay”.

E, ao final, tristemente percebemos que não passa disso: manipulação rasteira do Papa, das suas falas e pensamentos, mudando-lhes o sentido para vendê-lo como alguém que contraria a Fé católica. Pela ignorância dos católicos conseguiram vender-nos um Francisco que, literalmente, é um Anti-Francisco – fazendo o Papa parecer contrariar, além do Magistério da Igreja, sua própria posição constante.

Me pergunto: como muitos de nós engolimos isso sem lutar? Deus nos ajude… Mas vamos aos fatos

AS NOTÍCIAS

I. A primeira notícia que apareceu na mídia veio do, [até então] insuspeito site Catholic News Agency

Papa Convoca A [Criação de] Uma Lei De União Civil Para Casais do Mesmo Sexo, Em Mudança de Posicionamento do Vaticano“; tradução livre.

II. Não demorou muito, a versão em português já estava disponível

“Papa incentiva união civil para casais homossexuais, uma mudança na postura do Vaticano”. Título auto-explicativo, fontes [até então] seguras.

A notícia trazia indubitavelmente:

“Em um documentário que estreou nesta quarta-feira em Roma, o Papa Francisco se mostrou favorável à aprovação de leis de união civil para casais do mesmo sexo, tomando assim distância da atual posição do Vaticano e dos seus predecessores em relação ao tema.”

“Os homossexuais têm o direito de fazer parte da família. Eles são filhos de Deus e têm direito a uma família. Ninguém deve ser expulso ou ter uma vida miserável por causa disso”

Arrematando com a citação arrebatadora

“O que precisamos é criar uma lei da união civil. Dessa forma, eles estarão cobertos pela lei”, disse o Papa. “Eu defendi isso,” asseverou.

Pronto. Estava dada a Notícia que começava a espalhar-se por todos os Grupos e Comunidades do WhatsApp e Facebook. Naturalmente, uma mudança desse tamanho na postura da Igreja certamente se espalharia aos quatro cantos do mundo.

REPERCUSSÃO MUNDIAL IMEDIATA

I. BBC: “Pope Francis indicates support for same-sex civil unions”: Papa Francisco indica suporte para uniões civis de pessoas de mesmo sexo, em tradução livre

II. The Guardian: “Pope Francis backs same-sex civil unions”: Papa Francisco apoia uniões civis [de pessoas] de mesmo sexo, em tradução livre.

REPERCUSSÃO NACIONAL TANTO EM FORMA DE LOBBY
QUANTO EM SITES TRADICIONALISTAS

I. G1: “Papa Francisco defende união civil entre homossexuais”

Com a legenda “Em documentário, o papa diz que ‘pessoas homossexuais têm direito de estar em uma família’. ‘O que precisamos criar é uma lei de união civil’, ele afirma.”

II. BBC Brasil: Papa defende união civil gay: o que Francisco já disse sobre homossexualidade

III. Salve Roma (tradicionalista): Contrariando Bento XVI e resoluções da Santa Sé, Papa Francisco aparentemente defende proteção civil da sodomia

“Isso parece significar que, para o Papa reinante, as uniões sodomíticas, intrinsecamente más, devem ser reconhecidas como um bem jurídico a ser protegido pelo Estado.”

Uma coisa estava clara: as notícias diziam que O Papa e o Vaticano tinham mudado radicalmente de posição. E um detalhe importante: todas apontavam para a mesma notícia original da ACI em Português (ou da Catholic News Agency, em Inglês); elas são a mesma empresa.

Ou seja: só existia uma fonte, embora parecesse confiável. Algo estava começando a ficar estranho.

O JUÍZO APRESSADO COMEÇOU-SE A ESPALHAR-SE

Em poucas horas o imprudente mundo online estava em alvoroço.

Entre urros, anátemas, vestes rasgadas e afirmações apocalípticas, os tradicionalistas se debatiam furiosos – mas não podiam deixar de esconder que, no fundo, estavam alegres porque o Papa deliberadamente havia contrariado o Magistério da Igreja -.

Não menos agitados, também os grupos protestantes se manifestaram em opiniões divididas: alguns o chamaram de Besta do Apocalipse, enquanto outros não viam nenhum mal no Papa apoiar o casamento gay, desde que não fosse na Igreja.

Ainda haviam os progressistas que, aderindo a esta última opinião, comemorando, achavam que estava na hora mesmo de o Papa abandonar a ideia velha e deixar de uma vez por todas o Estado ditar as leis que bem entendesse.

Até mesmo figuras católicas internacionais como o Dr. Scott Hahn se posicionaram publicamente.

“Santo Padre, com respeito e humildade, discordo… se é mesmo isso que o senhor disse. Em qualquer caso, esclareça e retifique a sua declaração, especialmente tendo em vista o ensinamento oficial de nosso Senhor através do magistério de sua Igreja”

Só havia um único problema que nenhum desses grupos ou ainda de outros haviam percebido: as notícias pareciam contrariar não só o Magistério da Igreja [9] e a Doutrina Social da Igreja [10]. Mas pareciam contrariar até o posicionamento constante do próprio Papa Francisco:

“No decurso dos debates sobre a dignidade e a missão da família, os Padres sinodais anotaram, quanto aos projetos de equiparação ao matrimónio das uniões entre pessoas homossexuais, que não existe fundamento algum para assimilar ou estabelecer analogias, nem sequer remotas, entre as uniões homossexuais e o desígnio de Deus sobre o matrimónio e a família.

É «inaceitável que as Igrejas locais sofram pressões nesta matéria e que os organismos internacionais condicionem a ajuda financeira aos países pobres à introdução de leis que instituam o “matrimónio” entre pessoas do mesmo sexo». “

Amoris Laetitia, 251

Ué. Como assim? Será que o Papa estava não só contradizendo a Doutrina e o Magistério, mas até a si mesmo? Para o católico que acompanha o Santo Padre, conhece a Doutrina Social da Igreja e tem Fé, isso estava bem estranho.

A PRUDÊNCIA: MÃE DE TODAS AS VIRTUDES

Graças a prudência e ao esforço de muitos católicos, algumas coisas começaram a aparecer. A primeira delas, o vídeo do qual a fala do Papa Francisco fora extraída e compartilhada pelos irmãos:

Muitos Católicos sérios e Jornalistas começaram a se posicionar com Prudência, afinal, não é todo dia que parece que o mundo inteiro erra. Ou, pensando bem, quando se trata do Papa Francisco isso parece exceção: parece que todo dia o Mundo erra e distorce as frases do Santo Padre.

Um post prudente e bem alinhado da Mirticeli Dias, fazendo coro com outras postagens de outros católicos começou a mostrar algumas coisas.

Primeiro, começou a não parecer que a fala do Santo Padre estava suportando união civil gay – contra todas as notícias – e, segundo, não nada de união civil no texto, somente convivência civil. Fora do contexto, elas até parecem a mesma coisa, mas nesse contexto:

“Os homossexuais tem direito a estar em família, são filhos de Deus. Não se pode expulsar uma pessoa de sua família ou tornar a vida impossível para ela. O que temos que fazer é uma lei de convivência civil, para serem protegidos legalmente”

Papa Francisco, no vídeo editado de 20 segundos

Ao mesmo tempo que alguns leigos e padres partilharam como a Doutrina Social institui as coisas, o que ela pensa, como Santos e Firmes Bispos já se posicionaram sobre o assunto:

Também como estudiosos da Doutrina Social da Igreja, como o Carlos Ramalhete, abordaram a questão. Que, embora a Doutrina Social da Igreja jamais defenda união civil gay, ela não impede que as pessoas homossexuais tenham direito a seus bens, à sua dignidade, ao seu patrimônio…

As frases do Santo Padre não estavam ornando nada com a matéria original. E isso já estava bem claro.

Mas mesmo a frase original isolada não estava ornando perfeitamente – principalmente para quem assistia o vídeo, pois havia recortes -, mais ao final do dia, algumas coisas pareciam mais claras. Até o clima estava mais sereno: seja lá o que o Santo Padre o Papa tivesse dito, não parecia nada com o que o pessoal estava noticiando.

A MALÍCIA COMEÇA A APARECER

No final da noite O Catequista publica uma matéria mostrando a Fé e a Doutrina Social, explicando a Posição do Magistério e a consistente posição do Papa Francisco.

Também ensinando que, ainda que fosse verdade que o Papa tivesse se equivocado, estava falando privadamente, não ensinando a todos. Afinal, não é esperada infalibilidade no Santo Padre em tudo, mas somente nas declarações de fé enquanto Pastor Universal.

De qualquer forma, eles indicaram dezenas de pronunciamentos do Santo Padre bem consistentes, católicos e alinhados à Doutrina da Igreja.

Fomos dormir com a pulga atrás da orelha… mas malícia da matéria da ACI Digital começou a dar sinais. No dia seguinte (22/10), melhores informados, nossos pastores, prudentes, lembraram qual a Doutrina da Igreja e o que o Papa sempre ensinou.

QUANDO A VERDADE VEIO À TONA

Foi quando o Jornal O São Paulo, sob a direção de Dom Odilo, emitiu a matéria que fecharia a peça do quebra-cabeça que faltava para entendermos por que mesmo a frase do Santo Padre não parecia natural: Declaração do Papa sobre homossexuais foi editada com fragmentos de entrevista de 2019

O vídeo foi uma montagem, uma edição, que recortou falas do Santo Padre de uma entrevista que ele deu em 2019. Ele foi montado e veiculado com o fim específico de dar a entender que o Santo Padre defende o que ele não defende. Isso chama-se fraude.

O tema da discussão, portanto, dizia respeito ao lugar do filho homossexual em uma família heterossexual, ao contrário do contexto no qual foi inserida a declaração, imediatamente após o relato do ativista Andrea Rubera, que vive uma união civil homoafetiva e recebeu um telefonema do Papa Francisco, em 2015, após ter escrito uma carta ao Pontífice. Tal edição, sugere, portanto, que Francisco está falando sobre a realidade das chamadas “famílias homoparentais”.  

O pior: o trecho do vídeo original em que o Santo Padre afirma que é necessário fazer “uma lei de convivência civil” nem aparece na entrevista original oficial (!), segundo o próprio O São Paulo:

O quarto trecho da montagem, não aparece na versão original da entrevista de 2019 e parece ter sido cortado pela jornalista mexicana e nem mesmo está na transcrição oficial publicada pelo site Vatican News.

O contexto corresponde ao fato de Valentina Alazraki ter observado que o Papa Francisco se opôs ao “casamento” homossexual quando era Arcebispo de Buenos Aires, na Argentina, e que, paradoxalmente desde sua chegada a Roma, ele, na avaliação dela, parecia “muito mais liberal” do que quando estava em seu país de origem.

A resposta do Pontífice começa assim: “Sempre defendi a doutrina. É curioso, no que diz respeito à lei do ‘casamento entre pessoas do mesmo sexo’ … é incongruente falar de ‘casamento’ do mesmo sexo”.

No vídeo, a jornalista lhe faz uma pergunta e o documentário “Francesco” indica ter sido tirada daí a frase final do Papa, tanto que o corte é perceptível e a concatenação parece coerente

Ou seja, eles removeram a frase do Papa que explica seu pensamento e colocaram somente uma frase isolada de um pedaço de gravação que nem mesmo foi para o ar – que o Santo Padre não aprovou -. Isso é muito, muito grave (!). É, literalmente, uma montagem com o fim de enganar

Aqui está a entrevista original, de onde parte dos trechos foram extraídas:

Mas, ainda somente pela frase isolada, sem outro contexto nenhum a não ser o da entrevista, “precisamos criar uma lei de convivência civil“, é possível supor que o Santo Padre estava falando da convivência civil como o Magistério fala.

“É de se deplorar firmemente que as pessoas homossexuais tenham sido e sejam ainda hoje objeto de expressões malévolas e de ações violentas. Semelhantes comportamentos merecem a condenação dos pastores da Igreja, onde quer que aconteçam. Eles revelam uma falta de respeito pelos outros que fere os princípios elementares sobre os quais se alicerça uma sadia convivência civil. A dignidade própria de cada pessoa deve ser respeitada sempre, nas palavras, nas ações e nas legislações.”

Mas o mais certo é sabermos que o Santo Padre não quis que isso entrasse na entrevista original. Quem sabe por Prudência Pastoral, porque já sabia que poderia ser recortado? E é certo que o Santo Padre não falou União Civil.

Mas então, de onde veio isso “convivência civil” se tornar literalmente “união civil” e por fim “casamento gay”? Essa é fácil. Basta assistirmos ao video e veremos

Na legenda em inglês a expressão foi traduzida de forma tendenciosa. Está “civil union law”: “lei de união civil”, em tradução livre. Por todo o contexto, é muito provável que quem traduziu a legenda o tenha feito com a intenção de distorcer o sentido da fala do Santo Padre.

Os próprios brasileiros perceberam isso, e alertaram os irmãos nas redes sociais. Deus abençoe este anônimo que postou:

Por fim, o próprio veículo que distorceu, recortou e modificou as falas do Papa Francisco tentou lançar uma matéria “corroborando” com a mentira, agora óbvia. Tentando usar um Arcebispo como escudo. “Convivência e união civil são o mesmo para o Papa”:

Mas as falas do Arcebispo no texto interno deixam muitíssimo claro é que: “pode ser” que sejam o mesmo, na opinião do Arcebispo, não do Papa. O Arcebispo “da a entender” isso (segundo a matéria); mas, seja como for, para o Papa é algo completamente distinto de matrimônio homossexual, mesmo civil. Isso está na matéria.

Para ser honesta a matéria deveria se chamar “Papa Francisco Não Apoia União Civil Homossexual Mas Defende Que Os Direitos e a Dignidade Das Pessoas Sejam Preservados”. Qualquer coisa fora disso é distorção.

Precisamos de muito óleo de peroba aqui… porque algum Redator ou Jornalista está sendo muito cara de pau.

CONCLUSÕES

  1. O Papa é católico, conhece a Doutrina da Igreja e jamais se contradisse, nem contradisse ao Magistério.
  2. Um vídeo foi criado com recortes de uma entrevista. As partes relativas ao contexto e à clareza da fé católica que o Papa disse foram omitidas.
  3. Partes da entrevista que não foram ao ar foram anexadas no vídeo de modo descontextualizado sugerindo uma continuidade de raciocinio, que corrobora com a narrativa que o Papa apoia Casamento Gay
  4. Foi realizada uma tradução enviesada do conteúdo do vídeo em Inglês, que corrobora com a narrativa que o Papa apoia Casamento Gay.
  5. A Mídia Internacional e a Midia Nacional compartilharam essa notícia fraudulenta levando milhões de católicos e milhões de outras pessoas a se enganarem quanto à Posição do Papa e da Igreja sobre o assunto “Casamento Gay”
  6. Nos deixamos ser enganados por uma narrativa maliciosa e tendenciosa. Mas a Prudência e a Paciência revelam qualquer engano. Não foi a primeira vez e não será a última, infelizmente.

Por fim, ficam as perguntas:

  1. Quem editou o vídeo?
  2. Quem editou as legendas em inglês?
  3. Quem fez a matéria enviesada?
  4. O que lucraram com isso? Dinheiro? Enfraquecer o Papa?
  5. Qual a responsabilidade da ACI Digital / CNA sobre o ocorrido?
  6. Quando eles (e não o Papa) vão se pronunciar se retificando?
  7. E a mais importante: como católicos, até quando desconfiaremos da Fé do Papa?

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